Arquivo da tag: texto

Um vasto e único dia burguês

P1010715

P1010677

O transporte liga dois pontos por algumas horas. Devido ao encolhimento do planeta, decorrente de uma superabundância espacial do presente, linhas são construídas para viabilizar o acesso a esses pontos. No entrecruzamento virtualmente infinito dos destinos as referências se multiplicam por entre as janelas. Meios de transporte tornam-se lugares habitados a partir de uma configuração instantânea de posições, em meio a passagens provisórias e efêmeras. Cada corpo ocupa o seu lugar num mundo prometido à individualidade, perpassa(n)do pela paisagem-texto. Passar. Não parar. Palimpsestos espaço-temporais em que constantemente se reinscreve o jogo da identidade e da relação. A sociedade inorgânica é uma abundância de vazios densamente povoada por tensões solitárias.P1010841

P1010864

Texto e fotos por Henrique Rodrigues, originalmente publicados no zine Até o Centro edição especial

Anúncios

Como se…

DSCF1994

Caminho em ruínas de um tempo que ainda não passou. Tudo em volta se desfazendo tão rápido quanto quando formado. O concreto se rompendo no aço, poeira no ar. Fragmentos transformados em morros aplainados para passarmos. Passamos por cima e isso basta. Como se bastasse!

Ruínas de vida para abrir o caminho. Memórias que se escondem em lugares que não vemos, em pessoas que não percebemos, porque passamos, num passo de tempo apressado. Sentimos e ouvimos notícias de outros ontens, resquícios do que havia. Tudo que víamos agora não é mais, é outra coisa, e não estranhamos. Como se não fôssemos estranhos!

Caminhamos mais rápidos do que nossos passos, que já não cabem no tempo para transpor o caminho. Somos tantos e estamos em tantos lugares que nossos corpos se encontram em si mesmos e em outros apenas quando convêm. Definimos nosso tempo pelo que foi definido por outro, alguém indefinido. E todo o espaço que ocupamos parece obedecer, como se não parássemos!

As memórias dos que pararam, dos que antes ficaram, não são concretas, então, como se não existissem, viram passado. Embaixo do caminho, não vemos, não sentimos, não estranhamos. Dentro da nossa definição, talvez seja isso que buscamos. Como se não passássemos!

Pra Antônio Carlos,
luminosa linha eterna
(não mais) cercada de árvores.

Foto e texto por Marina Teixeira

sobre ônibus e aquários

o deslocamento de alguém cria imagens do espaço neste indivíduo. é como um mapa mental. possivelmente com elementos comuns, mas diferentemente dos mapas gráficos, objetivos, nessas imagens as referências são pessoais. pontos de referência. espaços são assim estebelecidos na experiência, real ou imaginada. espaços conectados pelos caminhos.

as imagens, que não são só visuais, ajudam a criar uma identidade do lugar. absorvidas pelos sentidos, assimiladas na mente e transmitidas pelo discurso, elas são o que faz com que um indivíduo possa identificar um espaço.

esses mapas compostos de impressões são uma forma natural de se localizar dentro de um contexto espacial maior. é essencial para que se forme um mapa coeso, o tempo adequado de experiência do lugar. pode ser o tempo de andar um caminho a pé, várias vezes. a imagem fica então marcada; e só não é definida porque as impressões são diferentes, e o processo repetido sobre o mesmo suporte: a memória.

nem sempre fazem sentido se comparados com os mapas políticos, que dividem territórios arbitrários; ou sequer com os mapas físicos, já que distâncias de tempo e espaço nesse contexto são subjetivas e mutáveis.

às vezes, os mapas mentais são construídos com base nos próprios mapas gráficos, numa tentativa de ligação com uma realidade objetiva, com medida e com escala. as pessoas se guiam pelos mapas, é uma forma de encontrar lugares. encontrar nesse caso não é descobrir… é talvez redescobrir, na experiência real, uma imagem representada.

numa cidade construída para os carros, ao ser levado de um lugar a outro por um veículo motorizado num fluxo artificial o ambiente fragmenta-se.

isso fica fácil de perceber quando falando de um indivíduo. os caminhos percorridos ficam frágeis na mente. as imagens ficam rápidas, tênues e dispersas, constantemente bombardeadas, como num cinema, numa narrativa com cortes. como se o ambiente estivesse sendo narrado diante dos olhos de um espectador. com direito a um espaço-tempo narrativo próprio. o indivíduo transfigura-se de um ator, que inerentemente interfere no ambiente, a um espectador, que se sente protegido em sua carapaça metálica, caixinha teletransportadora.

os lugares não criam conexão direta entre si. como se os lugares pudessem existir independentemente entre si. os caminhos não são assimilados. estabelecem-se como lugar abstrato, com a única finalidade de servir de passagem.

é o que acontece quando se senta no degrau em frente à porta de um ônibus indo até o centro. há diferentes velocidades com que as imagens passam. essa narrativa hipnótica pode ser parodiada por alguém olhando um aquário. apesar da estaticidade do observador, o fluxo existe e é inconstante e imprevisível. em relação ao vidro do ônibus o passageiro não se desloca, assim como quem está na frente de um vidro de aquário. e as impressões passam, descomprometidas, e passam pela barreira transparente estabelecida entre os habitantes do aquário, personagens dessa narrativa bizarra, e o “protegido” espectador.

mas de noite, a imagem no vidro é duas. olha-se para dentro, através do reflexo. vê o deslocamento de um ambiente. de um espaço. a paródia do aquário se volta contra o espectador.

Até o Centro

até o centro, todos os dias, nas metrópoles do mundo inteiro, bilhões de cidadãos se deslocam na rota que vira rotina – do bairro ao centro, do centro ao bairro. a paisagem vira cotidiano e o cotidiano esmaga a paisagem em turnos de picos na circulação. quem dita o fluxo é o que chamamos abstratamente de capital, uma força normalmente maior que a nossa própria, que nos obriga a trabalhar no que não queremos, para quem não gostamos, por objetivos que não dizem respeito nem a nós nem a nossa comunidade – para produzir e consumir o que não precisamos. rota de criaturas urbanas na luta pela sobrevivência. é o preço do “progresso”, que agride a todos mas do qual ninguém abre mão. como deixou dito Chico Science, “a cidade não pára, a cidade só cresce: o de cima sobe e o debaixo desce”.

até o centro é pra onde leva a avenida antônio carlos. uma grande artéria como outra qualquer no sistema de circulação de riquezas do organismo-cidade. não existe um motivo especial para termos escolhido esta avenida. aliás, existe um: é mais uma avenida usada constantemente no dia-a-dia das pessoas. poderia ser outra qualquer – qualquer outra carregaria consigo os mesmos grafites e pixos que aquela; quer dizer, quase os mesmos, mas não faz diferença. não estamos querendo ser saudosistas com a avenida antônio carlos; queremos mostrar a avenida. de cabo a rabo é um produto do meio, quando não é o próprio meio, sendo criada pelo – e criando – o cidadão. a avenida, uma vez que é essencial para o “progresso” da cidade, para fazer funcionar o sistema de riquezas em que estamos metidos, carrega consigo na mesma medida as sequelas desse progresso limitado: as margens e os marginais. e não adianta duplicar pistas, estampar o logotipo da prefeitura com sorrisos, tapar os buracos, reprimir os nóias, apagar os grafites. um sistema de exclusão necessáriamente tem de conviver com o excluído.

até o centro grafites, prédios, comércios, pedras de crack, muros, publicidades, animais urbanos, pessoas e expectativas – todos nascem, sobrevivem e morrem. quem está envolvido com isto, fazendo a trilha de asfalto pra lá e pra cá, respirando o percurso poeirento da antônio carlos vida afora, sabe que as fachadas, os pixos, linhas de ônibus, os cartazes nos postes, os botecos mal tratados, policiais, bandidos e cidadãos de todo tipo contam uma história underground da cidade. história sem h maiúsculo, vivida numa esquina e esquecida na outra, longe dos braços da lei, da análise das academias, do padrão do consumo – tudo junto e misturado, construindo a realidade coletiva. vidas vão e vêm até o centro. até o centro a história se faz e se dissolve.