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poesia de ônibus

I

todo dia é uma avenida diferente
passo lá todo dia
atravesso
de lado ou de frente
os passos arrastam no chão
que nem os calangos do sol
que fogem de mim
no ônibus, o sol
no chão, o sol
na cabeça na doença na pressa esqueço de me perder

II

os passos passo no pão
os calangos fui eu que pus
na rua paralela da avenida
que passa
como filme como aquário numa procissão ao contrário
as construções cortadas sangrando
o céu não muda
o céu não muda
o céu não muda
a via: não muda
a via: não muda
a via: não muda

III

a vila
na passarela sobre a avenida
no filme que passa como um aquário
em velocidades diversas
ao longo do tempo
no longo do caminho
construções sagradas cortando

Marcos Assis

sobre ônibus e aquários

o deslocamento de alguém cria imagens do espaço neste indivíduo. é como um mapa mental. possivelmente com elementos comuns, mas diferentemente dos mapas gráficos, objetivos, nessas imagens as referências são pessoais. pontos de referência. espaços são assim estebelecidos na experiência, real ou imaginada. espaços conectados pelos caminhos.

as imagens, que não são só visuais, ajudam a criar uma identidade do lugar. absorvidas pelos sentidos, assimiladas na mente e transmitidas pelo discurso, elas são o que faz com que um indivíduo possa identificar um espaço.

esses mapas compostos de impressões são uma forma natural de se localizar dentro de um contexto espacial maior. é essencial para que se forme um mapa coeso, o tempo adequado de experiência do lugar. pode ser o tempo de andar um caminho a pé, várias vezes. a imagem fica então marcada; e só não é definida porque as impressões são diferentes, e o processo repetido sobre o mesmo suporte: a memória.

nem sempre fazem sentido se comparados com os mapas políticos, que dividem territórios arbitrários; ou sequer com os mapas físicos, já que distâncias de tempo e espaço nesse contexto são subjetivas e mutáveis.

às vezes, os mapas mentais são construídos com base nos próprios mapas gráficos, numa tentativa de ligação com uma realidade objetiva, com medida e com escala. as pessoas se guiam pelos mapas, é uma forma de encontrar lugares. encontrar nesse caso não é descobrir… é talvez redescobrir, na experiência real, uma imagem representada.

numa cidade construída para os carros, ao ser levado de um lugar a outro por um veículo motorizado num fluxo artificial o ambiente fragmenta-se.

isso fica fácil de perceber quando falando de um indivíduo. os caminhos percorridos ficam frágeis na mente. as imagens ficam rápidas, tênues e dispersas, constantemente bombardeadas, como num cinema, numa narrativa com cortes. como se o ambiente estivesse sendo narrado diante dos olhos de um espectador. com direito a um espaço-tempo narrativo próprio. o indivíduo transfigura-se de um ator, que inerentemente interfere no ambiente, a um espectador, que se sente protegido em sua carapaça metálica, caixinha teletransportadora.

os lugares não criam conexão direta entre si. como se os lugares pudessem existir independentemente entre si. os caminhos não são assimilados. estabelecem-se como lugar abstrato, com a única finalidade de servir de passagem.

é o que acontece quando se senta no degrau em frente à porta de um ônibus indo até o centro. há diferentes velocidades com que as imagens passam. essa narrativa hipnótica pode ser parodiada por alguém olhando um aquário. apesar da estaticidade do observador, o fluxo existe e é inconstante e imprevisível. em relação ao vidro do ônibus o passageiro não se desloca, assim como quem está na frente de um vidro de aquário. e as impressões passam, descomprometidas, e passam pela barreira transparente estabelecida entre os habitantes do aquário, personagens dessa narrativa bizarra, e o “protegido” espectador.

mas de noite, a imagem no vidro é duas. olha-se para dentro, através do reflexo. vê o deslocamento de um ambiente. de um espaço. a paródia do aquário se volta contra o espectador.