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Resistências binárias

Aproveitando o clima de resistência virtual do último post e sem esquecer que resistências e opressões de fato ocorrem via bytes carregados de informações binárias pela rede, sigo postando esse stencil que surgiu na Antônio Carlos nos últimos dias. 1

2 Uma boa imagem que nos leva a reflexões como os lugares (possíveis) das novas resistências e as formas como a realidade virtual é capaz de construir e se confundir com a realidade física e vice-versa. A internet como Zona Autônoma é uma realidade que assusta gigantes capitalistas ao dar espaço para trocas livres de informação (e de mercadorias que fogem ao controle do mercado) e para a organização eficiente e anônima dos desorganizadores – que seguem com um pé na lama e um satélite na cabeça no trabalho permanente de construção de novas realidades. Piratas na Matrix…

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Pedra e tanque.

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enquanto a Faixa de Gaza pegava fogo lá quase do outro lado do mundo, os carros e buzus daqui continuavam seu movimento viciado de leva e trás, carregando os cidadãos que se confundem e se transformam em “força produtiva” ao longo dos caminhos asfaltados. calados, lendo o Super ou escutando aparelhos de mp3 na insônia constante da cidade, não percebiam que as bombas que explodiam lá em Gaza, explodiam continuamente também aqui, em vários focos de tensão cidade afora.

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chegamos na Antônio Carlos cedo, umas nove da manhã, com o trampo parcialmente planejado de véspera, quando nos reunimos no estúdio do coletivo Azucrina pra trocar uma idéias a respeito das recentes investidas do exército israelense sobre o território palestino em Gaza. tínhamos a situação e queríamos falar sobre ela, mas não foi fácil decidir nosso próprio ponto de vista a respeito do conflito. o que víamos pela TV e pela internet era puro ódio: um gigante que massacrava com ódio um semelhante, que por sua vez se munia de mais ódio para responder – e dessa forma um conflito que se retroalimentava com munição, fé e o sangue de muita gente inocente. não queríamos assumir uma bandeira, pois colocamos em xeque as posições de vítima e agressor, certo e errado, resistência e opressão – os antagonismos todos que nos pareciam tão personificados mas que no fundo concluímos que era uma questão circunstacial. havia é claro uma situação muito bem definida na qual o estado de Israel estava praticando um verdadeiro genocídio do povo palestino, havia covardia e discrepância de forças. mas nunca saberíamos dizer o que aconteceria se os papéis fossem invertidos… era o caso de defender uma bandeira humana e política, não uma bandeira nacional.

“exploradores e explorados, violentadores e violentados, tudo é meio a meio, tudo caminha lado a lado”

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o nosso pequeno conflito ideológico seguiu tarde adentro e nós buscamos inspiração na música Pedra e Bala, do Cordel do Fogo Encantado e BNegão, nos trabalhos da grafiteira sul-africana Faith47 e em vídeos da internet. persistimos na idéia inicial de fazer um letreiro e chegamos à frase “PEDRA E TANQUE SAO MAIS QUE NOTICIAS”, como forma de chamar atenção para a idéia de que havia um conflito em curso e que ele era real, tão real quanto os próprios conflitos que a cidade e os cidadãos vivem cotidianamente. ficamos o dia inteiro pintando esse trampo na Antônio Carlos, num dia em que sol e chuva ficaram se alternando na paisagem, com andaime e maconha gentilmente cedidos pela rapaziada da demolição.

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enquanto escrevíamos nossa frase no muro (com uma tipografia malaca desenvolvida pelo Kid, do Azucrina) uma retroescavadeira derrubava as paredes em volta como se fossem feitas de cartas de baralho, os noiados perambulavam como ratos nos escombros em busca de vigas de aço para transformar em pedra, os carros consumiam a cidade e os cidadãos se deixavam levar pelo “ritmo de mercado”, calando suas dores – pois os ônibus faziam muito mais barulho que seus possíveis lamentos. nós, pintando uma avenida, geograficamente longe dos tiros e das dores de crianças palestinas, dos choros daquelas mães, estávamos buscando consciência da realidade evocada, e ela não estava muito distante de nós. afinal, as pedras palestinas atiradas contra tanques blindados israelenses não são exclusividade do Oriente Médio. eles também se enfrentam aqui debaixo dos nossos olhos o tempo todo, em cada vestígio da luta de classes. em cada esculacho de um patrão, em cada ônibus lotado, cada cidadão assassinado pela polícia, cada lamento de pobreza, cada pedra de crack, cada esperança eclipsada pelo trabalho, cada mentira contada na TV, cada caminhão de minério levado embora, cada ciclista atropelado – pedras ricocheteiam em tanques…

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colaram nesse rolé: coletivo Azucrina, Figaeroa, Comum e Gangsta Crew.

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“A poeira subiu de ambos lados
Arames farpados olhos e punhos fechados, cerrados
A face marcada pela mesma vida seca como a terra, rachada
Uma sombra densa e pesada eclipsando o que há de melhor na sua alma
O verdadeiro terror mais sufocante que o calor, eu disse:
“Essa é a sua jaula”

Os desertos se encontram de várias formas
Seja no espírito no solo ou na mente através de idéias tortas
Que produzem gente morta em escala industrial

Guerra pela terra a pedra contra o tanque
Guerra altera a terra nada será como antes

Na inverção dos papéis do pequeno Davi contra Golias, o Gigante
Como os barões das mega-corporações
Gigante como o coronelado dos grandes e pequenos sertões
Como os vários e vários e vários ubiratans
(ubiratans…)
Com seus sanguinários batalhões
(É pedra e bala rasga o peito)
Que na sua prepotência
(De quem passa, passa sem destino)
E ignorância bélica
Não conseguirão perceber a força que a chegada certeira, daquela pedra”

– BNegão e Cordel do Fogo Encantado, “Pedra e Bala”.

Bora discutir?

Abrindo um espaço para divulgar algo que acho que vale a pena