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Como se…

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Caminho em ruínas de um tempo que ainda não passou. Tudo em volta se desfazendo tão rápido quanto quando formado. O concreto se rompendo no aço, poeira no ar. Fragmentos transformados em morros aplainados para passarmos. Passamos por cima e isso basta. Como se bastasse!

Ruínas de vida para abrir o caminho. Memórias que se escondem em lugares que não vemos, em pessoas que não percebemos, porque passamos, num passo de tempo apressado. Sentimos e ouvimos notícias de outros ontens, resquícios do que havia. Tudo que víamos agora não é mais, é outra coisa, e não estranhamos. Como se não fôssemos estranhos!

Caminhamos mais rápidos do que nossos passos, que já não cabem no tempo para transpor o caminho. Somos tantos e estamos em tantos lugares que nossos corpos se encontram em si mesmos e em outros apenas quando convêm. Definimos nosso tempo pelo que foi definido por outro, alguém indefinido. E todo o espaço que ocupamos parece obedecer, como se não parássemos!

As memórias dos que pararam, dos que antes ficaram, não são concretas, então, como se não existissem, viram passado. Embaixo do caminho, não vemos, não sentimos, não estranhamos. Dentro da nossa definição, talvez seja isso que buscamos. Como se não passássemos!

Pra Antônio Carlos,
luminosa linha eterna
(não mais) cercada de árvores.

Foto e texto por Marina Teixeira

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Antes de virar pó

SDC13643Ali era proibido colar cartazes.

Torre.concreto.madeirite.asfalto.

SDC12336 …  o tempo passa na avenida …

Parafraseando o Mundano, artista urbano de SP, “é muito teto caindo e muita gente sem teto”

Xerel

vigiaO Vigia na Antônio Carlos.

Pedra e tanque.

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enquanto a Faixa de Gaza pegava fogo lá quase do outro lado do mundo, os carros e buzus daqui continuavam seu movimento viciado de leva e trás, carregando os cidadãos que se confundem e se transformam em “força produtiva” ao longo dos caminhos asfaltados. calados, lendo o Super ou escutando aparelhos de mp3 na insônia constante da cidade, não percebiam que as bombas que explodiam lá em Gaza, explodiam continuamente também aqui, em vários focos de tensão cidade afora.

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chegamos na Antônio Carlos cedo, umas nove da manhã, com o trampo parcialmente planejado de véspera, quando nos reunimos no estúdio do coletivo Azucrina pra trocar uma idéias a respeito das recentes investidas do exército israelense sobre o território palestino em Gaza. tínhamos a situação e queríamos falar sobre ela, mas não foi fácil decidir nosso próprio ponto de vista a respeito do conflito. o que víamos pela TV e pela internet era puro ódio: um gigante que massacrava com ódio um semelhante, que por sua vez se munia de mais ódio para responder – e dessa forma um conflito que se retroalimentava com munição, fé e o sangue de muita gente inocente. não queríamos assumir uma bandeira, pois colocamos em xeque as posições de vítima e agressor, certo e errado, resistência e opressão – os antagonismos todos que nos pareciam tão personificados mas que no fundo concluímos que era uma questão circunstacial. havia é claro uma situação muito bem definida na qual o estado de Israel estava praticando um verdadeiro genocídio do povo palestino, havia covardia e discrepância de forças. mas nunca saberíamos dizer o que aconteceria se os papéis fossem invertidos… era o caso de defender uma bandeira humana e política, não uma bandeira nacional.

“exploradores e explorados, violentadores e violentados, tudo é meio a meio, tudo caminha lado a lado”

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o nosso pequeno conflito ideológico seguiu tarde adentro e nós buscamos inspiração na música Pedra e Bala, do Cordel do Fogo Encantado e BNegão, nos trabalhos da grafiteira sul-africana Faith47 e em vídeos da internet. persistimos na idéia inicial de fazer um letreiro e chegamos à frase “PEDRA E TANQUE SAO MAIS QUE NOTICIAS”, como forma de chamar atenção para a idéia de que havia um conflito em curso e que ele era real, tão real quanto os próprios conflitos que a cidade e os cidadãos vivem cotidianamente. ficamos o dia inteiro pintando esse trampo na Antônio Carlos, num dia em que sol e chuva ficaram se alternando na paisagem, com andaime e maconha gentilmente cedidos pela rapaziada da demolição.

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enquanto escrevíamos nossa frase no muro (com uma tipografia malaca desenvolvida pelo Kid, do Azucrina) uma retroescavadeira derrubava as paredes em volta como se fossem feitas de cartas de baralho, os noiados perambulavam como ratos nos escombros em busca de vigas de aço para transformar em pedra, os carros consumiam a cidade e os cidadãos se deixavam levar pelo “ritmo de mercado”, calando suas dores – pois os ônibus faziam muito mais barulho que seus possíveis lamentos. nós, pintando uma avenida, geograficamente longe dos tiros e das dores de crianças palestinas, dos choros daquelas mães, estávamos buscando consciência da realidade evocada, e ela não estava muito distante de nós. afinal, as pedras palestinas atiradas contra tanques blindados israelenses não são exclusividade do Oriente Médio. eles também se enfrentam aqui debaixo dos nossos olhos o tempo todo, em cada vestígio da luta de classes. em cada esculacho de um patrão, em cada ônibus lotado, cada cidadão assassinado pela polícia, cada lamento de pobreza, cada pedra de crack, cada esperança eclipsada pelo trabalho, cada mentira contada na TV, cada caminhão de minério levado embora, cada ciclista atropelado – pedras ricocheteiam em tanques…

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colaram nesse rolé: coletivo Azucrina, Figaeroa, Comum e Gangsta Crew.

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“A poeira subiu de ambos lados
Arames farpados olhos e punhos fechados, cerrados
A face marcada pela mesma vida seca como a terra, rachada
Uma sombra densa e pesada eclipsando o que há de melhor na sua alma
O verdadeiro terror mais sufocante que o calor, eu disse:
“Essa é a sua jaula”

Os desertos se encontram de várias formas
Seja no espírito no solo ou na mente através de idéias tortas
Que produzem gente morta em escala industrial

Guerra pela terra a pedra contra o tanque
Guerra altera a terra nada será como antes

Na inverção dos papéis do pequeno Davi contra Golias, o Gigante
Como os barões das mega-corporações
Gigante como o coronelado dos grandes e pequenos sertões
Como os vários e vários e vários ubiratans
(ubiratans…)
Com seus sanguinários batalhões
(É pedra e bala rasga o peito)
Que na sua prepotência
(De quem passa, passa sem destino)
E ignorância bélica
Não conseguirão perceber a força que a chegada certeira, daquela pedra”

– BNegão e Cordel do Fogo Encantado, “Pedra e Bala”.

Era.

antes

Em algum dia desses, no meio de toda violência das máquinas da A.C,  o pensamento caminha com Requiem, de  Mozart:

/

‘Oro, suplicante e prostrado
o coração contrito, quase em cinzas
tomai conta do meu fim.

Dia de lágrimas será aquele
no qual os ressurgidos das cinzas
serão julgados como réus.’

/


antes

antes

antes
Lembrando que o zine ta aberto a novos projetos.  idéias. discussões. caminhadas. fotos. videos. músicas. encontros.lambe lambes. textos. Participem, o espaço ta ai.

era uma casa…

no ritmo do “progresso” (aquele limitado, que rima com asfalto, concreto e pistas para carros e que é servil a uma classe muito bem definida) postamos essa série sobre uma das casas desalojadas na Antônio Carlos. é na verdade o esqueleto de uma construção, que começou a ser demolida na segunda etapa da duplicação da avenida e sabe-se lá por que está de pé até hoje. excurssionamos pra lá um dia desses prum rolé de reconhecimento – esse registro fotográfico é o resultado desse rolé.

a casa – à lá “uma casa muito engraçada” – não tinha portas nem janelas, só um amontoado de cômodos vazios, sujos de fuligem de fogueiras improvisadas, fezes e outros vestígios da presença precária de uns pedretes. dinâmico, o espaço ganhou uma nova função naqueles dias de dias contados: virou um noiódromo. [como já foi dito anteriomente, o excluído acaba dando as caras…]

voltamos lá depois para ocupar a mesma casa com algumas pinturas e grafites. em breve postamos o resultado.

fachada

a fachada, com um primeiro graff, do Aries

fachada

maloca

“maloca”

corredor

vestigios

vestígios

buraco