Arquivo da tag: cidade

VII Semana de Ciências Sociais

Opa! Depois de um tempo parado o blog do zine Até o Centro volta a ativa com a oficina Antônio Carlos Até o Centro, que faz parte da programação da Sétima Semana de Ciências Sociais – Reflexões sobre o urbano, na Fafich/UFMG.

-1

A oficina começa na segunda-feira, dia 24, e até o dia 26/8 propõe aos seus participantes um contato direto com a rua ao longo do percurso da avenida Antônio Carlos. Dentro da temática do encontro – “Reflexões sobre o urbano” – a idéia é que cada participante da oficina vivencie e interfira na avenida, produzindo ao final material para ser impresso numa edição especial do zine Até o Centro. Esperamos assim ampliar a reflexão em cima da Antônio Carlos e nos abrir para novas possibilidades dentro dessa temática.

O processo da oficina poderá ser acompanhado aqui no blog durante a semana.

Manifesto por uma Anticulinária Lúdica de Guerrilha

Fugindo um pouco ao nosso recorte específico da avenida Antônio Carlos, mas sem desviar do assunto cidade – que afinal contém a avenida e a vida de quem tá nela de forma inevitável -, posto a seguir o Manifesto por uma Anticulinária Lúdica de Guerrilha. O Manifesto, escrito por um Anti-chef Semkara, toca numa das questões essenciais da sobrevivência (e nesse caso específico, da sobrevivência nas cidades): a alimentação, mas vai além. Denunciando a estagnação e o comodismo dos sistemas de coisas que separam e teorizam excessivamente uma vida que deve ser antes vivida, o Manifesto abrange vida e a sobrevivência num sentido amplo, sob o ponto de vista urgente de quem precisa comer e precisa construir as estruturas para isso – para além do que nos é oferecido de forma pronta, separada, embalada, entoxicada, explorada e poluente pelo “mercado”. Provocando alternativas para uma alimentação com mais nutrientes e menos capital o texto evoca novas possibilidades de protagonismo nas cidades, um fazer na tora onde a participação exceda a expectativa. Tão revolucionário quanto sua fome! Sem mais lero-lero, lê aí,

untitled-22

Manifesto por uma Anticulinária Lúdica de Guerrilha
[ou  10 notas do Exército Chapatista de Libertação da Culinária (ECLC) sobre autonomia e autogestão na cozinha]

“Chapati: água + farinha = massa chata frita na chapa ou assada no forno; pão sem fermento. Culinária: atividade separada, hierarquizada sob determinação de especialistas”

“Todo bicho-humano deve ser atrevido e demente a ponto de VIVER sua poesia”

Em conformidade com a atual conjuntura alimentar, o Exército Chapatista de Libertação da Culinária vem declarar que:

1) Não partilhamos da inércia e desleixo alimentícios sempre desculpados pela “falta de tempo” ou pelos supostos “deveres” exigidos nas tramas do trabalho assalariado, dos estudos universitários ou das válvulas de escape terapêuticas. Apressados comem cru.

2) Duvidamos mesmo da segurança nutricional do que normalmente vem sendo consumido, mediante a troca monetária, nos estabelecimentos comerciais de alimentação, sejam fast-foods transnacionais ou cantinas vegetarianas locais recheadas de pompas evitáveis.

3) Preferimos o recurso estratégico do garimpo urbano e da reciclagem improvisativa-experimental, sem a mínima pretensão, por enquanto,  de fazer dele uma alternativa final às questões cotidianas da alimentação. É mais que viável comer sem ter que pagar por isso.

4) Entendemos tal estratégia como um meio possível de desvio radical em relação às práticas cômodas do consumismo e do trabalho, e não um fim absoluto que traz soluções em cadeia para os problemas globais.

5) Nossa questão é imediatamente cotidiana, portanto não necessariamente se relaciona com a histeria do social, econômico, psicológico, sexual, artístico, cultural, patológico, etc. Percebemos essa gama de categorias separadas como espécie de esquizofrenia teoricista e como baboseira que sempre favorece a fácil captura, pelas mãos dos especialistas da indústria gastronômica, de iniciativas concretas e vitais. Consideramos a guerrilha de cozinha como tudo isso ao mesmo tempo.

6) Nossas iniciativas se pautam definitivamente na vida, contra as arbitrariedades da sobrevivência.

7) Não apoiamos e nem mesmo precisamos do uso de ingredientes derivados de animais não-humanos (esses seres que também sentem, assimilam dor e sofrimento e não têm a oportunidade de reação “organizada” frente às mazelas que os onívoros humanos perpetram contra suas vidas) para a confecção de bombas… ou melhor, refeições.

8) Propomos a troca ilimitada de experiências referentes ao cultivo, produção, armazenamento e degustação de alimentos. Acrescentamos: que essa troca se dê sem mestres (normalmente uns cretinos) e alunos (em latim, sem-luz), sem oradores e ouvintes. Aprendizado livre consiste, para nós, em ser capaz de falar e ouvir, transfundir entre todos sem muito requinte. É questão de diálogo prático e organicidade.

9) Não somos ninguém e somos todos os que partilham, em teoria e prática, da necessidade de subverter o dia-a-dia vivendo. Nossas faces estão refletidas naquelas que estão cansadas de estarem cansadas. Nós, soldados do gozo e glutões assumidos, declaramos nossa guerra à monotonia e caretice que imperam nas cozinhas, meios de trabalho, escolas tradicionais, igrejas, galerias de arte, centros culturais e muitos outros paradeiros. Façamos nosso rango em todos os cantos possíveis, agora ou assim que desejarmos. O ápice da idiotia: aguardar o momento revolucionário aclamado pelos porcos historicistas para, então, decidir pela apropriação desse aspecto específico de nossa vida – o preparo de nossa comida. Esse momento já está em curso e são eles, os ativistas e militantes de plantão, que estão perdendo o bonde.

10) Se a vida fosse simples, ela não teria a mínima graça.

De mais uma cozinha ocupada nos altos montes que não podem pecar,
Anti-chef Semkara.

[obs: esse texto foi encontrado, assimilado e repassado, como todo conhecimento deveria ser. sinta-se livre para multiplica-lo.]