até o centro

até o centro, todos os dias, nas metrópoles do mundo inteiro, bilhões de cidadãos se deslocam na rota que vira rotina – do bairro ao centro, do centro ao bairro. a paisagem vira cotidiano e o cotidiano esmaga a paisagem em turnos de picos na circulação. quem dita o fluxo é o que chamamos abstratamente de capital, uma força normalmente maior que a nossa própria, que nos obriga a trabalhar no que não queremos, para quem não gostamos, por objetivos que não dizem respeito nem a nós nem a nossa comunidade – para produzir e consumir o que não precisamos. rota de criaturas urbanas na luta pela sobrevivência. é o preço do “progresso”, que agride a todos mas do qual ninguém abre mão. como deixou dito Chico Science, “a cidade não pára, a cidade só cresce: o de cima sobe e o debaixo desce”.

até o centro é pra onde leva a avenida antônio carlos. uma grande artéria como outra qualquer no sistema de circulação de riquezas do organismo-cidade. não existe um motivo especial para termos escolhido esta avenida. aliás, existe um: é mais uma avenida usada constantemente no dia-a-dia das pessoas. poderia ser outra qualquer – qualquer outra carregaria consigo os mesmos grafites e pixos que aquela; quer dizer, quase os mesmos, mas não faz diferença. não estamos querendo ser saudosistas com a avenida antônio carlos; queremos mostrar a avenida. de cabo a rabo é um produto do meio, quando não é o próprio meio, sendo criada pelo – e criando – o cidadão. a avenida, uma vez que é essencial para o “progresso” da cidade, para fazer funcionar o sistema de riquezas em que estamos metidos, carrega consigo na mesma medida as sequelas desse progresso limitado: as margens e os marginais. e não adianta duplicar pistas, estampar o logotipo da prefeitura com sorrisos, tapar os buracos, reprimir os nóias, apagar os grafites. um sistema de exclusão necessáriamente tem de conviver com o excluído.

até o centro grafites, prédios, comércios, pedras de crack, muros, publicidades, animais urbanos, pessoas e expectativas – todos nascem, sobrevivem e morrem. quem está envolvido com isto, fazendo a trilha de asfalto pra lá e pra cá, respirando o percurso poeirento da antônio carlos vida afora, sabe que as fachadas, os pixos, linhas de ônibus, os cartazes nos postes, os botecos mal tratados, policiais, bandidos e cidadãos de todo tipo contam uma história underground da cidade. história sem h maiúsculo, vivida numa esquina e esquecida na outra, longe dos braços da lei, da análise das academias, do padrão do consumo – tudo junto e misturado, construindo a realidade coletiva. vidas vão e vêm até o centro. até o centro a história se faz e se dissolve.

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