Pedra e tanque.

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enquanto a Faixa de Gaza pegava fogo lá quase do outro lado do mundo, os carros e buzus daqui continuavam seu movimento viciado de leva e trás, carregando os cidadãos que se confundem e se transformam em “força produtiva” ao longo dos caminhos asfaltados. calados, lendo o Super ou escutando aparelhos de mp3 na insônia constante da cidade, não percebiam que as bombas que explodiam lá em Gaza, explodiam continuamente também aqui, em vários focos de tensão cidade afora.

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chegamos na Antônio Carlos cedo, umas nove da manhã, com o trampo parcialmente planejado de véspera, quando nos reunimos no estúdio do coletivo Azucrina pra trocar uma idéias a respeito das recentes investidas do exército israelense sobre o território palestino em Gaza. tínhamos a situação e queríamos falar sobre ela, mas não foi fácil decidir nosso próprio ponto de vista a respeito do conflito. o que víamos pela TV e pela internet era puro ódio: um gigante que massacrava com ódio um semelhante, que por sua vez se munia de mais ódio para responder – e dessa forma um conflito que se retroalimentava com munição, fé e o sangue de muita gente inocente. não queríamos assumir uma bandeira, pois colocamos em xeque as posições de vítima e agressor, certo e errado, resistência e opressão – os antagonismos todos que nos pareciam tão personificados mas que no fundo concluímos que era uma questão circunstacial. havia é claro uma situação muito bem definida na qual o estado de Israel estava praticando um verdadeiro genocídio do povo palestino, havia covardia e discrepância de forças. mas nunca saberíamos dizer o que aconteceria se os papéis fossem invertidos… era o caso de defender uma bandeira humana e política, não uma bandeira nacional.

“exploradores e explorados, violentadores e violentados, tudo é meio a meio, tudo caminha lado a lado”

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o nosso pequeno conflito ideológico seguiu tarde adentro e nós buscamos inspiração na música Pedra e Bala, do Cordel do Fogo Encantado e BNegão, nos trabalhos da grafiteira sul-africana Faith47 e em vídeos da internet. persistimos na idéia inicial de fazer um letreiro e chegamos à frase “PEDRA E TANQUE SAO MAIS QUE NOTICIAS”, como forma de chamar atenção para a idéia de que havia um conflito em curso e que ele era real, tão real quanto os próprios conflitos que a cidade e os cidadãos vivem cotidianamente. ficamos o dia inteiro pintando esse trampo na Antônio Carlos, num dia em que sol e chuva ficaram se alternando na paisagem, com andaime e maconha gentilmente cedidos pela rapaziada da demolição.

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enquanto escrevíamos nossa frase no muro (com uma tipografia malaca desenvolvida pelo Kid, do Azucrina) uma retroescavadeira derrubava as paredes em volta como se fossem feitas de cartas de baralho, os noiados perambulavam como ratos nos escombros em busca de vigas de aço para transformar em pedra, os carros consumiam a cidade e os cidadãos se deixavam levar pelo “ritmo de mercado”, calando suas dores – pois os ônibus faziam muito mais barulho que seus possíveis lamentos. nós, pintando uma avenida, geograficamente longe dos tiros e das dores de crianças palestinas, dos choros daquelas mães, estávamos buscando consciência da realidade evocada, e ela não estava muito distante de nós. afinal, as pedras palestinas atiradas contra tanques blindados israelenses não são exclusividade do Oriente Médio. eles também se enfrentam aqui debaixo dos nossos olhos o tempo todo, em cada vestígio da luta de classes. em cada esculacho de um patrão, em cada ônibus lotado, cada cidadão assassinado pela polícia, cada lamento de pobreza, cada pedra de crack, cada esperança eclipsada pelo trabalho, cada mentira contada na TV, cada caminhão de minério levado embora, cada ciclista atropelado – pedras ricocheteiam em tanques…

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colaram nesse rolé: coletivo Azucrina, Figaeroa, Comum e Gangsta Crew.

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“A poeira subiu de ambos lados
Arames farpados olhos e punhos fechados, cerrados
A face marcada pela mesma vida seca como a terra, rachada
Uma sombra densa e pesada eclipsando o que há de melhor na sua alma
O verdadeiro terror mais sufocante que o calor, eu disse:
“Essa é a sua jaula”

Os desertos se encontram de várias formas
Seja no espírito no solo ou na mente através de idéias tortas
Que produzem gente morta em escala industrial

Guerra pela terra a pedra contra o tanque
Guerra altera a terra nada será como antes

Na inverção dos papéis do pequeno Davi contra Golias, o Gigante
Como os barões das mega-corporações
Gigante como o coronelado dos grandes e pequenos sertões
Como os vários e vários e vários ubiratans
(ubiratans…)
Com seus sanguinários batalhões
(É pedra e bala rasga o peito)
Que na sua prepotência
(De quem passa, passa sem destino)
E ignorância bélica
Não conseguirão perceber a força que a chegada certeira, daquela pedra”

– BNegão e Cordel do Fogo Encantado, “Pedra e Bala”.

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9 Respostas para “Pedra e tanque.

  1. Pela ordem o texto aí, doido.
    Massa compartilhar o por trás da construção do trampo.

  2. caralho mano!! vc tem o dom da escrita!! ficou fino de mais… agora é pegar o q esta escrito ai e traduzir em imagens em movimento ou nuam… munidas de sons q somaram a elas novos sentidos e pronto… saiu nosso video!

  3. Muito bom o paralelo entre a nossa realidade e a faixa de Gaza, Dereco! Vivemos um conflito silencioso, apesar do barulhos do trânsito e das demolições! E muito boa também a intervenção, a tipografia do Kid ficou ótima! Abrazz!

  4. Espancou… Parabéns, velho.

  5. Prezad@s;

    simplesmente lindo. estou com vontade de intervir no texto e fazer um roteiro colagem.

    bjs;

    EP

  6. mandou bem no texto dereco. durante o processo de fazer a trilha pro video do kid me identifiquei muito com tudo que escreveu, paesar de não ter participado das discussoes com vcs. qual seu email? posso te mandar se quiser.
    bjs

  7. EP, fique a vontade, meu caro, depois entre em contato conosco pelo email. Estamos trabalhando a versão impressa do zine, seu material pode virar material de publicação.

  8. Uma das intervenções mais interessantes que vi em BH nos últimos tempos. Acabei fazendo um texto sobre ela no Dispepsia também, coloco no ar amanhã.

  9. Pingback: Pedra e tanque são mais que notícias « Dispepsia

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